
Brasília viveu nesta terça-feira (1º) um dos dias de maior tensão recente nos bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF). Novas informações extraídas pela Polícia Federal do aparelho celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, trouxeram à tona mensagens atribuídas ao empresário e ao ministro Alexandre de Moraes e abriram uma nova frente de crise dentro da própria Suprema Corte.
Diante dos elementos apresentados pela Polícia Federal, o ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Caso Master, decidiu retirar o sigilo de parte da apuração e defendeu que os novos fatos sejam analisados pelo plenário do STF, em sessão presencial e pública. A eventual data da discussão deverá ser definida pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin.
Em sua manifestação, Mendonça afirmou que o plenário representa o “caminho inevitável” dos autos diante das novas informações levadas pela autoridade policial.
“Diante do teor das informações apresentadas pela autoridade policial, independentemente de qual venha a ser a manifestação exarada pela douta Procuradoria-Geral da República, o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste STF, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”, afirmou o ministro.
Para Mendonça, a discussão deve ocorrer de acordo com o modelo democrático e republicano, “de forma pública e transparente, em sessão presencial do Colegiado”.
Mensagens e novo material da Polícia Federal
Os novos elementos foram obtidos a partir da análise técnica e da descriptografia de dados encontrados no celular apreendido com Daniel Vorcaro. Segundo informações divulgadas pela Polícia Federal e reportagens sobre o material encaminhado ao STF, a investigação passou a examinar uma suposta rede de obtenção de informações sigilosas e de influência junto a autoridades e órgãos públicos.
Entre os pontos investigados estão mensagens em que Vorcaro teria buscado interlocução para tentar obter informações sobre investigações e medidas que poderiam atingir seus negócios.
A Polícia Federal também identificou mensagens em que Vorcaro perguntava se deveria deixar o país pouco antes de sua prisão, ocorrida em novembro de 2025. O ex-banqueiro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para embarcar para Malta.
Segundo o material divulgado pela imprensa, a investigação aponta que Vorcaro demonstrava preocupação com o avanço das apurações e tentava antecipar movimentos das autoridades.
As mensagens passaram a ter repercussão ainda maior após a Polícia Federal, por determinação do relator André Mendonça, aprofundar a identificação de interlocutores mencionados nos diálogos. De acordo com os relatórios noticiados, a PF atribuiu a Alexandre de Moraes a interlocução investigada em parte das mensagens.
Pedido de “proteção” amplia repercussão
Um dos trechos que passou a ser analisado pela investigação menciona um pedido de Vorcaro por “proteção” em relação ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O conteúdo levou Mendonça a solicitar providências e esclarecimentos no âmbito da investigação. A PGR também foi acionada para se manifestar sobre os novos elementos.
O caso agora ganha dimensão institucional ainda maior porque envolve, segundo os elementos divulgados, contatos atribuídos a um ministro do STF e um empresário investigado em um dos casos financeiros mais relevantes dos últimos meses.
A decisão de Mendonça de defender a análise pelo plenário busca justamente transferir a discussão para o conjunto dos ministros da Corte.
Bastidores: reportagem relata bate-boca entre Moraes e Mendonça
Enquanto os documentos começavam a produzir efeitos públicos e jurídicos, uma nova informação elevou a temperatura nos bastidores do Supremo.
Reportagem publicada nesta terça-feira pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles, relatou que Alexandre de Moraes e André Mendonça tiveram uma discussão intensa após Moraes tomar conhecimento de que o colega havia determinado o aprofundamento das investigações que resultaram na identificação do interlocutor de Vorcaro. Segundo a publicação, o encontro ocorreu no gabinete de Mendonça e o clima teria ficado extremamente tenso.
De acordo com a reportagem, houve bate-boca entre os dois ministros e a discussão, segundo a apuração da coluna, quase evoluiu para agressões físicas.
Ainda conforme o relato jornalístico, Mendonça teria questionado como Moraes tomou conhecimento de uma investigação que corria sob sigilo e estava sob sua relatoria.
A reportagem atribui a Moraes a resposta: “Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”.
Segundo a mesma apuração, Moraes teria acusado Mendonça de direcionar as investigações contra ele. Essas informações sobre o encontro e o conteúdo da discussão foram publicadas como relato de bastidor jornalístico e não constam, até o momento da divulgação da reportagem, como registro oficial de decisão ou ata do STF.
STF entra em novo momento de pressão
A sucessão dos acontecimentos coloca o Supremo diante de uma situação delicada. De um lado, a Polícia Federal apresenta novos elementos extraídos do celular de Vorcaro e busca identificar a extensão de uma suposta rede de monitoramento e influência. De outro, as mensagens atribuídas a interlocutores ligados ao caso passaram a atingir diretamente um ministro da própria Suprema Corte.
A decisão de André Mendonça de defender o debate no plenário transforma a crise em uma questão que deverá ser enfrentada institucionalmente pelo colegiado.
O próximo passo dependerá do presidente do STF, Edson Fachin, responsável por definir o eventual agendamento da sessão presencial.
Até lá, o Caso Master continua produzindo novos capítulos — agora não apenas no campo das investigações financeiras e criminais, mas também no coração da mais alta Corte do país.
A revelação das mensagens, o aprofundamento determinado pela Polícia Federal, o pedido de manifestação da Procuradoria-Geral da República e a tensão relatada entre dois ministros colocam o Supremo diante de um episódio de enorme repercussão política, jurídica e institucional.
O plenário, se convocado, deverá ser o palco da próxima etapa de uma crise que, em poucas horas, saiu dos autos de uma investigação sigilosa e passou a expor uma das maiores tensões recentes dentro do próprio STF.
Redação com informações do Portal Metrópoles, Folha S.Paulo e Portal UOL

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