
A tentativa do ex-prefeito do Recife e candidato João Campos (PSB) de deslocar o foco das críticas relacionadas ao episódio que ficou conhecido como “fura-fila” acabou abrindo uma nova frente de discussão política. Durante debate realizado nesta sexta-feira (11), na Rádio Cidade, em Caruaru, Campos questionou a governadora Raquel Lyra (PSD) em razão de sua remuneração como procuradora concursada do Estado, mas a estratégia terminou trazendo para o centro do debate os vencimentos de sua própria mãe, Renata de Andrade Lima Campos, servidora efetiva do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE).
Mãe do candidato e uma das principais referências políticas do PSB pernambucano, Renata Campos é auditora de controle externo do TCE-PE e está lotada no gabinete do conselheiro Marcos Loreto, seu primo. De acordo com os dados apresentados, a remuneração bruta mensal, considerando vencimentos, vantagens e indenizações, pode alcançar aproximadamente R$ 71 mil. O teto constitucional atualmente corresponde ao subsídio dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), de R$ 46.366,19.
Segundo dados atribuídos ao próprio TCE-PE, em fevereiro deste ano Renata Campos recebeu R$ 47.526,70 de vencimento, acrescidos de R$ 2.943,27 pelo exercício de função gratificada, R$ 2.376,33 em “vantagens pessoais” e R$ 6.491,26 referentes ao abono de permanência. A composição inclui ainda R$ 2.246,00 de auxílio-alimentação, R$ 4.277,40 de auxílio-saúde e R$ 9.041,40 classificados como “outras indenizações”. Após um desconto de R$ 3.536,84 identificado como “abate-teto”, o total informado chega a R$ 71.365,52.
A situação ganha contornos políticos porque João Campos utilizou justamente a questão dos pagamentos acima do teto para questionar a adversária. A crítica, porém, encontra uma circunstância semelhante no ambiente familiar do próprio candidato. Caso a interpretação defendida por Campos seja aplicada de maneira indistinta, a remuneração de sua mãe também poderia entrar no radar do debate sobre o teto constitucional.
Existe, entretanto, uma ressalva jurídica importante. Conforme o material apresentado, parecer do próprio TCE-PE reconhece a possibilidade de o governador optar pela remuneração correspondente à carreira efetiva que ocupava antes de assumir o cargo, entendimento que já teria sido aplicado no caso do ex-governador Paulo Câmara (PSB). Assim, a discussão sobre os vencimentos de Raquel Lyra não se resume simplesmente à comparação entre valores brutos e o teto constitucional, exigindo análise das regras específicas aplicáveis à remuneração e à opção pelo cargo de origem.

Além da remuneração recebida no TCE-PE, Renata Campos teria direito a uma pensão vitalícia relacionada ao período em que Eduardo Campos, seu marido e ex-governador de Pernambuco, exerceu mandato de deputado federal. Conforme a informação apresentada, decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), de 2025, reconheceu o benefício, atualmente estimado em cerca de R$ 9 mil mensais.
O episódio do “fura-fila”
A ofensiva de João Campos contra Raquel Lyra ocorre em meio às cobranças para que o ex-prefeito se manifeste sobre o episódio relacionado à chamada Operação Barriga de Aluguel. Deflagrada pelo Ministério Público de Pernambuco em 14 de agosto de 2025, a operação foi posteriormente anulada pelo juiz Rildo Vieira da Silva, que, segundo as informações apresentadas, responde a uma reclamação disciplinar na Corregedoria do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), a pedido do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A investigação envolve suspeitas relacionadas à contratação de uma empreiteira e teria alcançado pessoas próximas à administração municipal. Entre os nomes citados está o de Luciano Temporal Carneiro, ex-secretário-executivo de Saúde e apontado como amigo do ex-prefeito e próximo do advogado Tomás Alencar. Temporal também foi um dos principais assessores do ex-deputado federal Tadeu Alencar e ganhou espaço na administração municipal após o encerramento do mandato parlamentar.
As suspeitas mencionadas no material incluem possível enriquecimento ilícito, burla ao processo licitatório e utilização de recursos supostamente irregulares para o financiamento de campanhas eleitorais nas eleições de 2024. São alegações que, por sua gravidade, dependem de investigação, contraditório e eventual comprovação pelas autoridades competentes.
Nesse cenário, a tentativa de transformar o debate sobre remuneração em uma resposta política ao caso do “fura-fila” acabou produzindo um efeito reverso: trouxe para a discussão pública os rendimentos de uma das figuras mais próximas de João Campos. A estratégia, atribuída aos marqueteiros da campanha, entre eles o publicitário Rafael Marroquim, ligado ao Conecta Recife, passou a ser questionada justamente por colocar lado a lado dois episódios que envolvem interpretações jurídicas distintas.
O embate, portanto, ultrapassa a disputa entre João Campos e Raquel Lyra. De um lado, está a discussão sobre a legalidade de remunerações de agentes públicos e a aplicação do teto constitucional. Do outro, permanecem as cobranças por esclarecimentos sobre a Operação Barriga de Aluguel e os fatos que levaram ao episódio conhecido como “fura-fila”. No ambiente eleitoral, a tentativa de contra-atacar acabou ampliando o campo de questionamentos que o próprio candidato terá de enfrentar.
Redação com informações do Blog Manoel Medeiros

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