
O Fantástico, da TV Globo, leva ao público uma reportagem sobre um dos experimentos mais controversos da biotecnologia contemporânea: a tentativa da empresa americana Colossal Biosciences de recriar características do lendário lobo-terrível, predador que desapareceu há mais de 10 mil anos.

A experiência, apresentada pela empresa como parte de um processo de “desextinção”, combina DNA recuperado de fósseis, sequenciamento genético e a técnica de edição de genes conhecida como CRISPR. O trabalho despertou curiosidade justamente por aproximar a ciência de um cenário que durante muito tempo pareceu restrito à ficção científica.
Na reportagem, o programa também coloca em discussão uma questão que vai muito além do nascimento dos animais: o que aconteceria se uma espécie extinta fosse devolvida a um planeta completamente diferente daquele em que viveu?

A Colossal apresentou três animais produzidos a partir de células de lobos-cinzentos geneticamente modificadas. Os dois primeiros, Rômulo e Remo, nasceram em outubro do ano passado.

Meses depois, nasceu uma fêmea, Khaleesi. Os animais permanecem em uma área controlada e não há previsão de soltura na natureza.
Um animal do passado em um mundo diferente
O lobo-terrível habitou a América do Norte durante o Pleistoceno e fazia parte de um ecossistema marcado pela presença de grandes animais. Entre suas possíveis presas estavam integrantes da megafauna que também desapareceram ao longo das transformações ambientais daquele período.
É justamente essa diferença entre o mundo antigo e o atual que aparece como um dos principais dilemas abordados pelo Fantástico.
O ecólogo Fernando Fernandez, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), questiona qual seria a função ecológica de um grande predador adaptado a caçar animais que já não existem.
A preocupação é que a simples reconstrução de características de uma espécie não signifique a reconstrução do ambiente necessário para sua sobrevivência.
O debate coloca a chamada desextinção diante de uma contradição: a tecnologia pode conseguir recriar um animal, mas não necessariamente consegue recriar o ecossistema que desapareceu junto com ele.
Afinal, o lobo-terrível voltou?
Outro ponto levantado pela reportagem é científico: os animais produzidos pela Colossal são realmente lobos-terríveis?
Para chegar aos filhotes, pesquisadores analisaram um DNA extraído de fósseis do animal extinto e compararam o material genético com o do lobo-cinzento moderno. A partir dessa comparação, foram feitas 20 alterações em 14 genes, buscando reproduzir características consideradas importantes do lobo-terrível, como porte, musculatura e coloração da pelagem.
O procedimento não significa, portanto, que todo o genoma do animal extinto tenha sido reconstruído.
Na prática, trata-se de um lobo-cinzento geneticamente modificado para apresentar determinadas características associadas ao lobo-terrível. É justamente essa distinção que alimenta parte da discussão científica em torno do conceito de “desextinção”.
A própria Colossal defende a ideia de uma espécie funcionalmente desextinta, enquanto pesquisadores discutem se a reprodução de algumas características é suficiente para considerar que uma espécie desaparecida tenha realmente retornado.
O perigo de alterar um ecossistema
O Fantástico também aborda os possíveis riscos ecológicos de introduzir organismos modificados em ambientes onde eles não existiam anteriormente.

Um exemplo utilizado para ilustrar esse tipo de desequilíbrio é o do sapo-cururu na Austrália. Introduzido no país para combater uma praga agrícola, o animal se multiplicou e passou a provocar impactos sobre espécies nativas que não estavam adaptadas ao seu veneno.
O caso demonstra como uma alteração aparentemente controlada pode desencadear consequências inesperadas em uma cadeia ecológica.
Por isso, segundo os especialistas apresentados na reportagem, a eventual utilização de animais geneticamente modificados na natureza exigiria uma avaliação muito mais ampla do que simplesmente verificar se eles conseguem sobreviver.

Da ‘desextinção’ à conservação
Apesar da controvérsia, a tecnologia desenvolvida pela Colossal pode ter uma aplicação que interessa diretamente à conservação da biodiversidade: ajudar espécies que ainda existem, mas estão ameaçadas de desaparecer.
A edição genética pode, por exemplo, contribuir para pesquisas envolvendo populações extremamente reduzidas, permitindo estudar maneiras de ampliar a diversidade genética ou recuperar determinadas características perdidas.
É uma mudança importante de perspectiva. Em vez de utilizar a tecnologia apenas para tentar recuperar espécies que já desapareceram, ela poderia ser empregada para evitar que outras espécies cheguem ao ponto da extinção.

O próximo passo pode ser ainda maior
O lobo-terrível não é o único projeto da Colossal. A empresa também trabalha para desenvolver tecnologias relacionadas ao mamute-lanoso, utilizando o elefante-asiático como espécie de referência.
A ambição da companhia transformou a chamada desextinção em uma das áreas mais acompanhadas da biotecnologia. Mas, quanto maior o alcance da tecnologia, maiores também são as perguntas sobre seus limites.
A reportagem do Fantástico coloca justamente esse dilema em evidência: a humanidade começa a desenvolver ferramentas capazes de interferir diretamente no código genético de animais, inclusive utilizando informações recuperadas de espécies desaparecidas há milhares de anos.
A questão, portanto, já não é apenas se a ciência consegue “trazer de volta” características de um animal extinto.
O debate que o Fantástico apresenta é mais profundo: se a humanidade conseguir reconstruir espécies do passado, estará também preparada para lidar com as consequências de colocá-las em um mundo que já não é o mesmo?
É nesse intervalo entre a façanha tecnológica e o equilíbrio da natureza que a chamada desextinção deixa de ser apenas uma experiência de laboratório e passa a representar um dos grandes debates sobre o futuro da biotecnologia.
Redação do Blog TV Umburanas com informações de reportagem do Fantástico, da TV Globo, sobre o lobo-terrível, a Colossal Biosciences e os dilemas ecológicos da chamada desextinção. Para informações técnicas sobre o projeto, também podem ser consultadas as publicações da própria Colossal Biosciences.

Deixe uma resposta