
O que para milhões de consumidores brasileiros representa a possibilidade de comprar produtos importados mais baratos pode se transformar em uma dor de cabeça para quem produz, emprega e movimenta a economia no Agreste de Pernambuco.
O Congresso Nacional aprovou, nesta última semana, o fim da chamada “taxa das blusinhas”, zerando o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida, que ainda depende de sanção presidencial, elimina a alíquota federal de 20% que incidia sobre essas encomendas. O ICMS estadual, entretanto, continua sendo aplicado.
A mudança mexe diretamente com um dos principais polos econômicos do Estado: o complexo de confecções formado principalmente por Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, além de uma extensa rede de municípios fornecedores, comerciantes, faccionistas, transportadores e trabalhadores que vivem da cadeia da moda no Agreste.
Na prática, o temor do setor é que a retirada do imposto amplie ainda mais a vantagem competitiva de grandes plataformas internacionais de comércio eletrônico, que oferecem roupas, acessórios e outros produtos a preços que muitas vezes não encontram equivalência no comércio tradicional brasileiro. É uma disputa que vai muito além de uma simples comparação de preços.
De um lado, está o consumidor, atraído pela possibilidade de comprar produtos estrangeiros pagando menos. Do outro, está o pequeno comerciante brasileiro, que precisa arcar com impostos, folha de pagamento, aluguel, energia elétrica, transporte e toda uma estrutura necessária para manter sua atividade funcionando.
O senador Fernando Dueire (PSD-PE) alertou que o fim da tributação pode atingir diretamente a confecção nacional e apresentou emendas para preservar a alíquota de 20% especificamente para produtos de vestuário. Ao defender a proposta, destacou a importância econômica e social do Polo de Confecções do Agreste.
Em agosto, a bancada do PT no Senado passou a defender a aprovação da medida que zerava o imposto para compras de até US$ 50, sob o argumento de aliviar o peso tributário para consumidores de menor renda.
É justamente aí que está o ponto central da discussão: o produto mais barato para quem compra pode representar uma pressão maior para quem fabrica e vende no Brasil.

Uma ameaça que chega pelas telas dos celulares
Para o comerciante do Agreste de Pernambuco, a concorrência deixou de estar apenas na loja vizinha ou na feira da cidade.Ela está no celular do consumidor.
Com poucos cliques, o comprador pode comparar preços, escolher modelos, acompanhar avaliações e receber mercadorias vindas do exterior. A redução da tributação tende a tornar essa operação ainda mais atraente.
Entidades empresariais nacionais já classificaram o fim da taxa como uma ameaça à competitividade da indústria e do varejo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, estima que a mudança pode colocar empregos em risco, enquanto representantes do comércio argumentam que empresas brasileiras ficam submetidas a uma estrutura de custos muito superior à de vendedores estrangeiros.
O problema ganha uma dimensão ainda maior no Agreste porque a economia da região não depende apenas das grandes fábricas. Existe uma cadeia formada por pequenos confeccionistas, facções, vendedores, transportadores, fornecedores de tecidos e aviamentos e milhares de trabalhadores que participam direta ou indiretamente da produção.
Quando uma peça deixa de ser produzida localmente porque o produto importado chega mais barato, o impacto potencial não termina na loja. Ele percorre toda essa cadeia.
A nova realidade coloca uma pergunta inevitável para Pernambuco: como preservar a força do Polo de Confecções diante de uma concorrência internacional cada vez mais acessível?
A resposta não passa necessariamente apenas pela manutenção de impostos.
Também envolve crédito, modernização das empresas, tecnologia, qualificação profissional, redução de custos, melhoria da logística, acesso a mercados e políticas públicas capazes de aumentar a produtividade e o valor agregado da produção pernambucana.
Enquanto Brasília comemora a redução de impostos para as compras internacionais, no Agreste de Pernambuco o sentimento é de cautela.
Para quem está diante de uma máquina de costura, atrás de um balcão ou percorrendo diariamente as feiras e centros comerciais de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, entre outras cidades em Pernambuco e no Brasil, a discussão não é apenas sobre uma “blusinha” mais barata.É sobre quem vai produzir a próxima peça, onde ela será fabricada e quantos empregos estarão por trás dela. E esse é o verdadeiro desafio que o fim da taxa das blusinhas coloca para Pernambuco.
Redação com informações de veículos da imprensa

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